Quem sou Eu?

Sou Tahjra Kwendi. Não, esse não é meu nome verdadeiro. É apenas o meu, digamos, "codinome". Ninguém me chama assim. Meu nome verdadeiro, se acham importante saber, é Tatiana. Tenho 17 anos de idade. Meus maiores prazeres na vida são ler e escrever. Nasci em São Paulo, cresci em Águas de São Pedro e hoje moro em Goiânia. Logo voltarei para São Paulo, para cursar Cinema na USP. Sou muito pretensiosa às vezes, mas não creio que isso faça mal a alguém. Não sei se há mais coisas interessantes em minha vida para eu dizer aqui. Mas uma dica: Para me conhecerem, leiam o que eu escrevo. Não ouçam o que eu digo, pois os lábios às vezes mentem. As palavras, nunca.

Eu Recomendo:

Nádegas a Declarar
Sou Mongol
Vampire Theater
Neuroses Paulistanas
Pragmática
Charges.com.br
Past Mortem




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Avada Kedavra

Segunda-feira, Julho 24, 2006

Licor em Taça de Champanhe

Espremo meu coração numa taça
E encho-a de amor, sangue e angústia.
Serve-te um gole!, bebe um gole de mim
Deixa que eu mostre a ti o que sou
Quando invadir teu corpo e matar-te a sede
Saberás quem sou por trás da máscara
E quererás outro gole, e outro ainda
Para te embriagar de mim.
Sou bebida de forte teor alcoólico
Se me queres outra taça, toma cuidado
Pois meu aroma inebria, meu sabor enlouquece,
Minha mente pertuba, minha alma mata.
Se te sirvo meu coração, bebe-o com gelo
Para que não te queime as entranhas,
E não lhe estranhes a cor negra
nem o sabor amargo.
Sou eu que te entrego uma taça de mim
Não desperdices gota alguma
Que fora de mim tenho alto poder corrosivo
Mas se me bebes com vontade sou suave
E se tiveres interesse verás como sou doce
Tenho gosto de licor em taça de champanhe.

(04-fev-2006)

Como uma fênix que ressurge das cinzas, escrevo após o incêndio. Incêndios raros, cada vez mais esparsos. Senhor, trazei novamente minha fonte de inspiração!

Comprei "Poemas Completos de Alberto Caeiro". Um mimo para mim mesma, com puro interesse intelectual (interesse vestibulárico, na verdade).
"Pouco me importa.
Pouco me importa o quê? Não sei... Pouco me importa."

Narrado por Tahjra Kwendi, em 7:22 PM
Parla!

Sábado, Fevereiro 18, 2006

Perfume de Rosa Morta

Ainda morta conserva em seu corpo
O doce aroma que Deus lhe deu
Embora murcha, fria e feia,
Seu aroma impregna o ambiente e causa volúpia
Em quem a ama
E quem não ama
Sente ainda assim o aroma
Mas diz dele ser aroma triste, aroma morto.
A morte tem cheiro de rosa murcha.

Aquele aroma doce e suave
Torna-se forte e mais doce
E chega a causar náuseas
Em quem não ama
E quem a ama
Sabe que a rosa deixa o aroma
Como quem diz que esteve aqui
E que, embora seja hoje podre,
Foi cheia, quente e bela.

Jamais esquecerei do perfume da rosa morta

Narrado por Tahjra Kwendi, em 5:44 PM
Parla!

Sábado, Novembro 19, 2005

Agora sim, passando para algo sério. Se pensei em alguém ao escrevê-lo? Não. Não sei. E não é um dos meus preferidos.

A Aliança

Amar-te-ia por toda uma vida
E em cada passo teu este amor pulsaria,
Vibrante, ardente como o fogo,
Como ardeu uma noite, um dia,
Há tempos que nem lembro mais!
De tuas mãos a me correrem,
Em meu corpo, como eras meu!
Ah, amor, como me lembro!
Quando a chama da vela negra
que iluminava nosso desejo
Ardeu fundo em meus olhos
Reflexo de morte em tuas mãos.
Ah, Deus!
Perdi a mim em tua aliança!

Narrado por Tahjra Kwendi, em 8:08 PM
Parla!

Fruto de um quase-ataque histérico causado pelo tédio de ficar aproximadamente três horas sentada, esperando poder entregar o vestibular da UFG

O Patinho Feio

O Patinho Feio queria ser gente
Correi na estrada e foi atropelado
O Patinho Feio queria ser gente
Mudou para o Rio e foi assaltado
O Patinho Feio queria ser gente
Roubou um sapato e foi condenado
O Patinho Feio queria ser gente
Brigou com um preso e foi estuprado
O Patinho Feio queria ser gente
No meio da noite foi esfaqueado
O Patinho Feio queria ser gente
Fugiu da cadeia e não foi encontrado
O Patinho Feio queria ser gente
Mudou pra Brasília e virou deputado

Narrado por Tahjra Kwendi, em 8:03 PM
Parla!

Domingo, Novembro 13, 2005

A Chuva


Naquele dia não haveria coisa que pudesse irritá-la mais do que a chuva. Bem, talvez houvesse. Andava irritadiça ultimamente. E chovia, é o que importa.
O barulho da chuva sempre a irritara, desde a infância. Porém, mais que a chuva ou o simples barulho desta, ela odiava o som dos pingos no ferro da janela. "Chet-chet-chet-chet", freneticamente, sem pausas.
E ainda mais do que odiava este som, odiava ver a água vencendo a (pouca) resistência das janelas de ferro e invadindo a casa.
Folheou uma revista, tentando esquecer o barulho, "chet-chet-chet", e a água que invadia furiosamente, ainda que seus pais corressem a tentar impedí-la. A revista era em francês. Nem ela nem ninguém naquela casa falava francês - por que insistiam em ter uma revista mensal em francês? Mas folheava a revista insistentemente, como uma forma de terapia. Não que a acalmasse, mas a verdade é que a segurou por um certo tempo.
As vozes dos pais - por que não a deixavam em paz? - desviou-lhe a atenção das folhas em francês. Abandonou a revista sobre uma das cadeiras, sentada em outra.
A chuva na janela... Imediatamente su pé passou a mexer-se como que movido por uma força oculta. O pai chegara próximo à janela. Ele passou o dedo no beiral, fazendo a água marrom que ali estava escorrer para o chão. "Nojento" - pensou ela. O barulho da chuva...
Repentinamente viu-se levantar de um salto da cadeira e esmorrar a janela. Quebrara o vidro sem se importar, chutara os móveis com tanta força quanto o grito de ódio que saía de sua garganta. Quem dela se aproximara - quem foi? - fora atingido. Agora gargalhava enlouquecida entre os móveis quebrados, arrancando-se os cabelos. Livre! Livre! Rá-rá!
A mão do pai em seu cabelo. Estava sobre a cadeira, sentada como antes. A janela estava intacta. O barulho da chuva na janela.
O pai comentou algo. Talvez fosse ele quem ela atingira havia poucos momentos atrás. Ele comentava sobre o bolo, quem sabe?
Ela levantou-se da cadeira e subiu as escadas. Mal sabia o pai que ela acabara de destruir toda a sala de estar.

"... Subiu as escadas e pôs-se a escrever freneticamente sobre o que acontecera. Ou sobre o que quase acontecera."

Narrado por Tahjra Kwendi, em 11:29 PM
Parla!

Domingo, Outubro 23, 2005

Este poema é irmão de Não chorou no enterro da mãe. Inspirado pelo texto O Peso de Uma Lágrima, que o Juliano me mandou (foi você que escreveu, Ju?).

Lágrima de Amor

Entre lágrimas e dores, o silêncio reinou
No coração da menina a música cessou
- Onde estão as tuas lágrimas, menina?
Onde estão? Onde estás?

O silêncio fez-se do amor, que era Amor
Mas que o Tempo impiedoso,
Tendo inveja do que era Amor,
Levou embora consigo.

E apesar da dor que seu peito sentiu,
Não chorou, a menina, nem uma lágrima
Nem palavra mais seu lábio falou.

Da dor que sentia, porém,
Tomou lugar o Vazio
- O que dói mais que o Vazio,
Se o Vazio não dói, porque é vazio?

No coração da menina não havia nada
Nem luz
Nem escuro
Mas ainda batia, o movimento mecânico

E o Tempo sentiu remorso
E quis que a menina esquecesse
- Mas quem disse que Amor vai embora
depois que morre?

Pois quando o coração da menina
cansou de lutar contra ela,
A menina morreu
E todos por ela choraram
E no rosto da menina
Uma lágrima brilhou.
Era o Amor que o Tempo levara!

Narrado por Tahjra Kwendi, em 6:46 PM
Parla!

Sábado, Setembro 24, 2005

A inspiração para o poema abaixo veio de uma noite na casa de Leandro Bessa em que o grande Ator, Diretor e otras cositas más resolveu mostrar suas poesias. Sim, o Polivalente é poeta (e dos bons, coisa rara em Goiás). Demorei algum tempo entre esta noite e quando escrevi o poema abaixo (dia 11/09/05), mas vale!

Não chorou no enterro da mãe

Era um menino bonzinho,
"Um anjo", diziam as avós
Mas não chorou no enterro da mãe.
Olhou o caixão, e lá dentro o defunto que o gerara
Mas nem uma lágrima soltou.

Era um menino de talento,
Tinha tudo que um menino quer
Tinha casa, comida, brinquedos
E tinha a mãe, mas esta não tem mais
A mãe-defunta que dorme com os mortos
A mãe-cadáver que estava no caixão
Que o menino viu e não chorou.

De não chorar, o menino calou
E ninguém mais o viu sorrir
Mas ninguém se importava; valia apenas
Que o menino não chorou no enterro da mãe.

E não chorou, o menino, porque não sabia chorar
Ninguém nunca o ensinara
- Mas chorar lá é coisa que se ensine?
E não chorou no enterro da mãe.

O nome do menino nem ele se lembrava
Não mais o chamavam; ele era apenas
O garoto que não chorou no enterro da mãe.

Até o dia em que o menino gritou,
E gritou apenas porque não sabia chorar
Gritou até que todos o ouvissem
E o expulsassem de casa por gritar; afinal
Ele não chorou no enterro da mãe.

O menino gritou correndo pelas ruas,
As pessoas fechavam a janela,
E o menino gritou até não conseguir mais.

O menino entrou na igreja,
Lá viu suas avós. "Um anjo", elas diziam.
E subiu no altar e estuprou a Virgem Maria
Sem tirar-lhe o véu.
As pessoas o acusaram. O menino
Não chorou no enterro da mãe.

Morreu assim, ninguém sabe como
Nem importa saber.
Mas não chorou quando morreu
E nunca aprendeu a chorar.
E não chorou no enterro da mãe.

Narrado por Tahjra Kwendi, em 11:31 PM
Parla!

Domingo, Setembro 18, 2005

Inspiração assistindo ao telejornal.

Agenor


Agenor levantou-se da cama com um mau pressentimento. "Bobagem", pensou. Era um homem sensato demais para se deixar levar por impressões sem fundamento.
Era um homem honestíssimo, o Agenor. No trabalho - era sargento da tropa de choque -, era respeitado como ninguém. Nunca se atrasava e jamais desobedecera a uma ordem. E acordou naquele dia com um pressentimento ruim.
Foi para a cozinha e deu um beijo na mulher, que preparava seu café-da-manhã. A filha de quatro anos andava sonolenta pela casa, arrastando sua boneca. O filho adolescente dormia no quarto.
Comeu um pão com manteiga, afagou a cabeça da filhinha e beijou a mulher. Saiu de casa para o trabalho.
Logo esqueceu-se do mau pressentimento. O trabalho no quartel era puxado, mas o dia transcorreu sem maiores problemas aparentes. Agenor se orgulhava de ser sargento. Pensava que aquele era o emprego mais importante de todos: manter a ordem na cidade.
Foi no fim do dia que Agenor teve novamente o pressentimento. Uma ligação informou que uma confusão começava a se armar na Paulista. E parecia que não era confusão pequena.
Prepararam as viaturas e foram. Vinte soldados. Agenor rezou para não precisarem de mais.
Não haviam andado muito na Paulista quando viram o tumulto. Um protesto, Agenor identificou logo. Pelos cartazes, eram estudantes reclamando de alguma coisa. "Adolescentes", pensou Agenor, "Por que não procuram algo para fazer em vez de sempre reclamar de tudo?"
Ao soldados se puseram a postos, escudo protetor na frente. Os estudantes atiravam pedras, gritavam para chamar a atenção do governo. Queriam mais verbas para a educação. "Que burrice fazer tumulto para chamar a atenção. Por que não buscam outros meios?", Agenor pensou.
Agenor gritou a ordem. Os soldados começaram a avançar, fazendo barulho. Os estudantes recuaram um pouco, mas continuaram a jogar pedras e ameaçar com gritos. Estavam furiosos. Agenor ficou furioso também. Nem se lembrava mais do mau pressentimento. Ordenou que começassem a atirar bombas de gás lacrimogênio nos estudantes.
A fumaça assustou os que protestavam. Recuaram mais, cegos pelas bombas. A polícia militar atravessou a fumaça e começou a algemar os que atiravam pedras. Os estudantes se revoltaram com a atitude e voltaram a atacar.
Se atracavam corpo a corpo, policiais e soldados com os estudantes. As bombas continuavam a estourar, mas ninguém mais parecia se incomodar com a fumaça.
Um estudante chutou Agenor no rosto. Mesmo com o capacete, Agenor sentiu a dor invadindo. Furioso e cego, sacou a arma e atirou.
Os estudantes, assustados com o tiro, se afastaram. A polícia aproveitou o momento para prender mais revoltosos. Na confusão de pés e fumaças, Agenor viu um estudante deitado no chão. Lembrou-se do tiro. "Merda!", pensou.
Os policiais aproximaram-se do estudante e conferiram o pulso. Agenor sentiu o coração bater mais forte. Nunca atirara em alguém antes, nunca precisara. "Por favor, por favor! Esteja vivo!"
Um policial indicou com a cabeça. O garoto estava morto. Agenor sentiu-se tonto. Seu coração disparava. "Bom...", tentava se consolar, "ele procurou isto".
Aproximou-se do corpo, sentindo a culpa crescer. "Merda! Merda! Merda!", pensava, quando chegou perto do garoto. Sentiu o coração parar.
O rosto do adolescente estava ensangüentado. A bala, cruelmente certeira, acertara-lhe a testa. Mal podia-se ver as feições sob o sangue. Mas Agenor reconheceu imediatamente o rosto do filho.

Narrado por Tahjra Kwendi, em 8:34 PM
Parla!

Domingo, Setembro 11, 2005

Virgem na Praia

Na mão direita um ramo de rosas
Sobre o peito, dobrado o braço
Sobre o coração as rosas

Azuis os olhos para o céu azul
Cachos louros ao vento do mar
Era um anjo, meu Deus!, um anjo!

A boca rubra tocando o céu
Sentia-se só, sentia-se nua
E nu seu corpo estava.

A lua brilhava seu corpo branco
E tocavam-lhe a pele seus dedos suaves
Mas eram frios, e eram quentes.

A maré impura tocou-lhe os cabelos
E a negra voz soou com o sol.
A garota morreu na areia.


Uma recém-saída do forno. Acabei de fazer, portanto não sei dizer se é boa ou não. Por hora, achei boa o suficiente para postar. Depois... quem sabe?

Narrado por Tahjra Kwendi, em 3:04 AM
Parla!

Quarta-feira, Setembro 07, 2005

Outra vez, uma produção durante uma aula. Inspiração? Muitas... E quem sabe, nenhuma?


Alma Gêmea

Por que, anjo, por que
Conheço a ti como a ninguém
Se nunca antes os meus olhos
Viram teus olhos olhando nos meus?

Sei de tu'alma
Como se antes já fora minha
Sinto tua força
Como se em mim completasse a minha

Ah, loucura! Ah, mente insana!
Que queres de mim, e o que quer
Esta vida, nesta vida
Se te sei de outro lugar?

Sei quem sou, sei quem és
Sei de tudo antes de nascer
Sei da vida antes d'outra morte
Sei de tudo e nada sei

O que será, o que serei?
O que é de nossas vidas
Que são duas, que é uma?

O que serás de mim,
O que serei de ti?
Somos tudo
E nada somos.

Narrado por Tahjra Kwendi, em 2:53 AM
Parla!

Domingo, Agosto 14, 2005

Uma de improviso, para o flog do Juliano. Achei meio fraquinha, mas gostei mesmo assim.
A propósito, estou procurando um lugar que tenha daquelas travinhas de blog, para ninguém sair copiando meus textos sem pagar direitos autorais. Alguém pode me ajudar?


Agonia de uma Virgem


Olho em volta e não vejo nada,
O frio me consome e tudo parece maior.

Sinto meus braços congelarem, minhas pernas não me pertencem mais.
Quero gritar, mas minha garganta está seca.
Meu peito arde e sinto o coração bater devagar,
Descompassado, perdido, sozinho.

Quero chorar
Estou com medo
Ouço vozes ao meu redor,
Mas estou só.

Estendo meu braço para o infinito,
Pois o infinito prepara-se para me abraçar.

Uma lágrima queima meu rosto.
Minha voz pára feito pedra,
E feito pedra me sufoca.

Olho desesperada,
Mas há apenas escuridão.
Onde está a prometida Luz?

Algo frio toca-me a pele,
ou será meu coração?
Quero gritar! Alguém me ajude!
Mas há apenas escuridão.

Que horas são?

Narrado por Tahjra Kwendi, em 9:23 PM
Parla!

Terça-feira, Julho 19, 2005

Só assim para conseguir agüentar até o fim uma aula de Física... Perdão, Luciano, mas suas aulas são inassistíveis.

Ana e Bruno


- Bom dia, meu amor!
- ...
- Dormiu bem?
- ...
- Amor, tá acordada?
- Quem consegue dormir com você falando aí?
- Ai! Credo, que grosseria! Por que tanto mau-humor?
- Não tô de mau-humor! Posso dormir?
- Eu te acordo com tanto carinho pra receber patada?
- Não dei patada! Posso dormir?
- Não... não deu patada, não. Eu que sou sempre o culpado, né?
- Culpado de quê? Eu só falei que queria dormir, caramba!
- Você não tem o mínimo de sensibilidade! Eu vou todo feliz acordar você aí e você me trata como se eu fosse um estorvo! É isso, né? Eu sou um estorvo pra sua vida!
- Ô, meu deus! Eu não falei nada disso! Eu só trabalhei o dia inteiro ontem e você ainda quis ver o filme até tarde da noite! Eu só quero dormir!
- Ahá! Não falei? Aí você falando que a culpa é minha!
- Eu não tô falando que a culpa é sua, meu anjo! EU-SÓ-QUERO-DORMIR!
- Pára de gritar comigo! Você precisa ser assim tão grossa?
- Ah, Bruno! Me deixa dormir!
- ...
- Boa noite.
- ...
- ...
- Se você quer me mandar embora de casa é só falar, tá?
- Eu não quero te mandar embora, caramba! Será que é tão difícil pra você entender que eu só quero dormir?
- ...
- Posso dormir?
- ...
- Obrigada.
- ...
- ...
- Amor, você tem outro?
- Quê?!
- Eu tô perguntando na boa, não vou ficar mal se você tiver.
- Você é louco.
- Ah...
- ...
- Isso quer dizer que você tem outro?
- ... Eu não acredito nisso...
- Quer dizer que tem outro?
- Larga de ser paranóico.
- Eu vi isso num filme uma vez. Você tá fugindo do assunto porque tem outro, né?
- Bruno, vai procurar o que fazer e me deixa dormir.
- Você não respondeu a minha pergunta.
- ...
- Quem é ele?
- Ele quem?
- O outro. Eu conheço? Tudo bem se eu conhecer, eu só quero saber.
- Não tem nenhum outro!
- Tem certeza?
- Não, Bruno, eu não tenho certeza. Eu sou tão vadia que não tenho certeza de com quem eu durmo.
- Você não é vadia.
- Bom, foi você quem me fez pensar isso.
- Só perguntei se você tinha outro.
- E eu já disse que não. Posso dormir?
- Você tá falando sério? Não tem outro?
- ...
- Hein?
- ME - DEIXA - DORMIR!!!
- Ah, desculpa.
- ...
- ...
- Amor?
- ...
- Amor!
- Que é agora?
- Tá dormindo?
- ...
- Eu só queria dizer que tô muito feliz por você não ter outro, tá?
- Ah, sério?!
- Sério. E também queria pedir desculpas por desconfiar de você.
- Tá, tá. Posso dormir?
- Ah, claro. Você merece dormir bastante pra descansar.
- ...
- Amor?
- ... que é?
- Eu queria que você soubesse que eu te amo.
- Eu também te amo. Agora, por favor, me deixa dormir.
- Ah, tá. Boa noite, então.

Narrado por Tahjra Kwendi, em 5:18 AM
Parla!

Sábado, Julho 16, 2005

Sobre os Anjos


Anjos fecham os olhos diante de mim,
Benzem-se e rezam,
Viram as costas e saem tomados de horror.
Mas dão ainda uma olhadela
Antes de fechar os olhos novamente
E imaginar-me nua.
No escuro de seus olhos
tiram-me a roupa e lambem-me e desejam
E em seus delírios esquecem as asas
que Deus lhes deu
E chamam-se demônios e pecam e gostam.
Nos seus sonhos imaginam-me ser currada
por todos os Anjos dos céus
E gozam nos meus seios e dizem palavrões.
Depois abrem os olhos,
Benzem-se mais uma vez,
Viram-se e vão-se embora.
Com um sorriso nos lábios...

Narrado por Tahjra Kwendi, em 5:07 PM
Parla!

Sábado, Maio 28, 2005

De um sonho nasce uma história. Não uma das melhores histórias que eu já escrevi - e nem muito parecida com o sonho - mas uma história. Não sei se um conto, uma crônica ou outra classificação (é... faltei às aulas de Redação), mas uma história. Não tem título - chamem como quiserem. E ainda quero ver Nospheratu.

Resolveu sair, ver um pouco o movimento nas ruas. Já cansara de ficar amargando a derrota em casa. Aquele sabor de luto devia passar. Fazia uma semana que não botava a cara para fora do portão. Aliás, permanecera praticamente no mesmo lugar desde que ele saíra pela porta.
Tomou um banho caprichado, arrumou-se como se tivesse um encontro, passou seu melhor perfume e vestiu a roupa mais bonita. Sorriu ao olhar-se no espelho - estava muito melhor assim.
Saiu sem rumo. Não sabia muito bem onde queria ir - nem mesmo se queria ir a algum lugar. Por estes destinos que ninguém sabe explicar, foi parar em frente à locadora. Era nova, abrira enquanto estivera enclausurada em casa. Decidiu entrar - ver um filme era uma boa idéia.
Um lugar grande, espaçoso e aconchegante. Com as paredes em tons escuros - pinturas de filmes clássicos em todos os lados - e uma iluminação fraca, lembrava-lhe uma sala de cinema. E como gostava de cinema!
Poucas pessoas estavam dentro da locadora no momento, o que foi um alívio para ela. Não sabia se estava preparada para ver muitas pessoas ao mesmo tempo. Começou, então, a andar entre as prateleiras, procurando algum filme bom.
Logo notou que era uma locadora de alto nível. Tinha, além daqueles títulos hollywoodianos que todo mundo adora, filmes maravilhosos que raramente eram encontrados em lojas. Sentiu-se feliz por isso - finalmente uma boa locadora, e tão perto de sua casa!
Estava na sessão de suspense quando esbarrou em um homem. Este deixou cair vários filmes que carregava. Ela pediu mil desculpas, não acreditava que não o tinha visto. Ele sorriu - um lindo sorriso, ela notou - e disse que não se preocupasse. Era um atendente da locadora. Perguntou se podia ajudá-la a escolher um filme.
"Na verdade, não sei muito bem o que quero. Nem sei se quero realmente alguma coisa. Talvez, no fundo, eu queira apenas o nada" - suspirou. Ele terminou de recolher os filmes e colocou-os no balcão. Olhou-a intrigado. "Paradoxos, não? É... Acho que um bom clássico é o que você precisa..." - disse, olhando-a nos olhos.
Pediu que ela o seguisse por um corredor de prateleiras no fundo da locadora. Ela agora estava cercada de filmes em preto-e-branco, tão antigos quanto o Cinema. Desde as comédias de Chaplin até os horríveis Ed Wood - que de tão ruins se tornaram clássicos -, todos os filmes que ela sempre procurara incansavelmente pela cidade se encontravam ali. Sentiu-se feliz pela segunda vez desde que entrara naquela locadora. Continuou seguindo o homem de olhos azuis - sim, eram de um azul incandescente - pelo corredor dos milagres.
"O que você gosta de assistir?" - a voz de veludo dos olhos azuis ressoou pela ala vazia da loja. "Gosto de todos. Todos os bons filmes produzidos no mundo. Todos aqueles que merecem ser chamados de Cinema." O homem olhou no fundo de seus olhos. "Você estuda Cinema?" - perguntou. Ela sorriu enigmaticamente. "Não como você pensa."
Permaneceram calados por um tempo. Estáticos, olhando-se nos olhos. Por fim, ele quebrou o silêncio. "O Fantasma da Ópera?" Ela não entendeu. "Que acha de O Fantasma da Ópera, de 1927?" - repetiu, tirando um filme da prateleira. Ela olhou para o filme. "Estava pensando em algo menos dramático." "O Grande Ditador?" - ele rebateu. Ela soltou uma risada sonora. "Não assim tão exagerado..."
Silêncio novamente. Ela passou os olhos pelos filmes nas prateleiras. Procurava um filme em especial, mas não se lembrava qual era. Concentrou-se em lembrar. Tinha que lembrar.
"Nospheratu, de Murnau?" Ela olhou-o assustada. Era este o filme! Como ele soubera? Como percebera? "É o meu preferido" - ele disse, como que respondendo às suas perguntas.
"Onde está?" - ela perguntou, olhando em volta. Não via o filme em lugar nenhum. "Gosta de Nospheratu?" Ela o encarou, agora com uma vontade desesperada de assistir ao filme. "Na verdade, nunca assisti. Onde está?" - perguntou, ansiosa.
"Não tem aqui." - ele respondeu - "A única unidade está fora da loja." Ela sentiu uma onda de raiva subindo pela espinha. Por que ele sugerira, então? "E quando volta?" "Não volta. É meu filme preferido."
O que ele queria dizer? Será que não percebia que estava brincando com os sentimentos dela? - instantes após, sentiu-se ridícula por estes pensamentos.
"Onde está? Sabe onde tem?" - interrogou-o. "Nenhuma outra locadora da cidade tem. E, na verdade, não tem nem em lojas. Foi um sacrifício encontrar a unidade que tínhamos aqui."
Sacrifício... Sim, ela estava disposta a sacrifícios para assistir àquele filme. Sentiu uma súbita vontade de esganá-lo ali mesmo se ele não dissesse logo onde estava o maldito filme. Nospheratu.
"Eu quero ver este filme. Eu preciso ver este filme!" - disse, num tom que pareceu-lhe mais violento do que deveria. Mas era assim que seria. Guerra, então. Ele que dissesse onde estava o filme. Melhor se ficasse assustado com o tom da voz dela.
Mas, para seu espanto, ele sorriu misteriosamente. "Você quer mesmo ver este filme, não é?" Ah, se quero! É claro que quero! - começou a considerar seriamente a possibilidade de esganá-lo naquela ala. Estava afastada demais do resto da loja para alguém perceber. Depois ela alugaria um filme e sairia tranqüilamente da locadora e...
"Que filme você alugaria?" - ele perguntou, assustando-a. Ele ouvira seus pensamentos? "Como assim?" - ela perguntou, tentando manter a calma. Aquilo era uma guerra, e ele apenas usara um artifício para desarmá-la. "Se você não pudesse ver Nospheratu, que filme alugaria no lugar?"
Como assim, qual filme? Ele ainda não entendera que ela queria ver Nospheratu? "Não levaria nenhum. Quero ver Nospheratu." - respondeu, firme.
Ele aproximou-se e sorriu. Olhou-a nos olhos. Por um instante ela pensou que ele fosse beijá-la. Nospheratu.
Estavam próximos. Ela sentia o perfume inebriante que ele exalava. Conseguia sentir o calor que emanava de seu corpo. Então, num sussurro sensual, ele falou: "Na minha casa."
Ela lançou-lhe um olhar de dúvida. Não podia acreditar no que ele falara. Pensou em sair violentamente pela porta e nunca mais voltar àquele lugar. No instante seguinte, porém, cogitou a possibilidade. Afinal, era um homem atraente...
"O filme está na minha casa" - ele disse, em voz alta. "Se quiser, posso ir buscar."
Ela sentiu-se estúpida. Pensou novamente em sair correndo pela porta e nunca mais voltar. Mas o filme... O filme! Ele dissera onde estava o filme! E se oferecera para ir buscar! Quero, quero! Claro que quero o filme!
"Você mora aqui perto?" - ela perguntou. "Do outro lado da rua."
Ela olhou para a casa que ele apontava. Voltou seus olhos para ele, enigmática.
"Então vamos lá assistir."

Narrado por Tahjra Kwendi, em 4:22 PM
Parla!

Sábado, Abril 23, 2005

Das Chaos

"Adeus, meus sonhos, eu pranteio e morro!"
(Álvares de Azevedo)


Quando os olhos se abrirem para o mundo,
Quando tudo parecer claro, mesmo no escuro,
Quando o sol iluminar menos que a verdade,
Quando o teu toque me trouxer mais que felicidade,
Quando teus beijos me despertarem para a dor,
Quando a vida provar que não existe amor,
Quando não houver diferença entre o ser e o não-ser,
Quando a lua sumir do céu e apagar teu renascer,
Quando o já previsto apocalipse acontecer,
Quando a Besta vier a tua cara marcar,
Quando a simples troca de olhares cegar,
Quando o verdadeiro Deus se revelar,
Quando o Caos total se instalar,
Quando Lúcifer dominar os céus,
Quando a Virgem tirar os sete véus,
Quando eu beber este copo de veneno escarrado,
Quando a Morte já nos tiver preparado,
Quando o fogo arder na Terra demoníaca,
Sentirás na tua pele hipocondríaca,
Na dor lancinante que tomará teu coração,
Na loucura infernal intrincada no teu cérebro,
No pavor aterrorizante escondido nos instintos
E, perdido e louco, implorarás por socorro.
Sinto muito, amor, eu pranteio e morro!


O fruto de uma hora e meia de espera após o término do Simulado e uma aula torturante de Física. Pela primeira vez, escrevi uma poesia sem modificar uma única linha posteriormente.

Narrado por Tahjra Kwendi, em 6:37 PM
Parla!